
Segurança alimentar na produção: os desafios que começam antes da fábrica
A produção primária é o primeiro passo para garantir a segurança alimentar.
Da gestão da água e do solo às práticas agrícolas e pecuárias, muitas das decisões que influenciam a qualidade e a segurança dos alimentos acontecem antes da chegada das matérias-primas à indústria.
Esta realidade tem ganho especial relevância num contexto cada vez mais exigente para os produtores. As alterações climáticas, a pressão sobre os recursos naturais, a volatilidade dos custos de produção e a crescente complexidade regulamentar estão a transformar profundamente o setor agroalimentar.
Ao mesmo tempo, consumidores, retalhistas e mercados internacionais exigem níveis cada vez mais elevados de rastreabilidade, transparência e controlo.
Neste contexto, a produção primária assume um papel cada vez mais estratégico na cadeia alimentar, influenciando não apenas a segurança dos alimentos, mas também a confiança que acompanha os produtos até ao consumidor final.
A segurança alimentar começa na origem
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), as atividades associadas à produção primária podem introduzir diferentes perigos na cadeia alimentar, tornando necessária a implementação de boas práticas agrícolas e de higiene capazes de prevenir e controlar riscos desde a origem.
A produção agrícola e pecuária envolve múltiplos fatores com impacto direto na segurança dos alimentos. A qualidade da água utilizada, a gestão do solo, a utilização de fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos, as condições de produção animal, o armazenamento e as práticas de higiene representam apenas alguns dos aspetos que exigem controlo permanente.
Esta abordagem está alinhada com os princípios que orientam a política europeia de segurança alimentar. O modelo “farm to fork” reconhece que a prevenção dos riscos não pode começar apenas na transformação industrial ou na distribuição, devendo estar presente ao longo de toda a cadeia alimentar.
A produção primária assume assim um papel determinante na prevenção de contaminações, na gestão dos perigos biológicos, químicos e físicos e na construção de sistemas alimentares mais seguros, resilientes e sustentáveis.
Os novos desafios da produção alimentar
Produzir em segurança implica hoje equilibrar segurança alimentar, produtividade, sustentabilidade e rentabilidade num contexto cada vez mais exigente para a cadeia agroalimentar.
A gestão eficiente da água e da energia, a redução do impacte ambiental, a adaptação a fenómenos climáticos extremos e o cumprimento de requisitos regulamentares em constante evolução obrigam as empresas a equilibrar objetivos que nem sempre são fáceis de conciliar.
Esta realidade é particularmente desafiante na produção primária, onde muitos fatores com impacto direto na operação dependem de condições externas difíceis de prever ou controlar. As alterações climáticas, por exemplo, têm vindo a influenciar a disponibilidade de recursos, a produtividade agrícola e a incidência de pragas e doenças, criando desafios para a gestão do risco e para a resiliência dos sistemas de produção alimentar.
Ao mesmo tempo, os mercados exigem níveis crescentes de transparência, sustentabilidade e utilização responsável dos recursos naturais.
Assim, produzir em segurança implica não apenas garantir a conformidade e prevenir riscos, mas também assegurar a integridade dos sistemas de produção a longo prazo.
O papel da rastreabilidade da origem à cadeia alimentar
À medida que as cadeias de abastecimento se tornam mais extensas e complexas, cresce também a necessidade de garantir maior visibilidade sobre a origem e o percurso dos produtos ao longo da cadeia alimentar.
Aqui, a rastreabilidade assume um papel fundamental. A capacidade de identificar a origem dos produtos, acompanhar os seus movimentos e responder rapidamente perante uma ocorrência contribui para uma gestão mais eficaz dos riscos e para uma maior proteção dos consumidores. A Comissão Europeia considera a rastreabilidade um dos pilares do sistema europeu de segurança alimentar, importante para identificar problemas, limitar impactos e apoiar respostas rápidas em situações de risco.
Ao mesmo tempo, a evolução tecnológica está a transformar a forma como as empresas monitorizam e controlam os seus processos. Sistemas digitais, recolha de dados em tempo real, sensores e ferramentas de análise permitem melhorar a monitorização da produção, reforçar os mecanismos de controlo e apoiar a tomada de decisão.
Para os produtores, isto traduz-se numa maior capacidade para antecipar riscos, demonstrar conformidade e responder às crescentes exigências de clientes, mercados e entidades reguladoras.
Produção segura: um desafio cada vez mais estratégico
A produção primária continua a ser um dos pilares da segurança alimentar. Num contexto marcado por exigências crescentes em matéria de sustentabilidade, conformidade e gestão do risco, os produtores enfrentam o desafio de garantir alimentos seguros sem comprometer a integridade e a resiliência dos seus sistemas de produção.
Compreender este equilíbrio é cada vez mais importante para responder às necessidades atuais e futuras da cadeia agroalimentar.
É precisamente sobre esta realidade que incidirá a sessão “O desafio da produção segura: entre risco, sustentabilidade e viabilidade económica”, integrada no programa do Portugal Food Safety 2026.
Ao reunir profissionais de diferentes áreas da cadeia agroalimentar, a sessão pretende promover a discussão em torno dos fatores que influenciam a segurança alimentar desde a origem e refletir sobre o equilíbrio necessário entre segurança, sustentabilidade e desempenho operacional.